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Abelhas e soja podem conviver?

O Brasil é um país a parte. Tem uma biodiversidade invejável, a maior do planeta. São mais de 103.870 espécies animais e 43.020 espécies vegetais conhecidas. Mas não para por aí. Também é uma potência de produção de alimentos entre elas commodities como café, açúcar, milho, suco de laranja, algodão e a soja. Na oleaginosa a liderança é disparada. Na safra 19/10 foram pouco mais de 124 milhões de toneladas e, nesta, são esperadas 134 milhões. Para se ter ideia o segundo colocado nesta cultura, os Estados Unidos, deve colher 113,5 milhões de toneladas.

Dizem que por aqui tudo que se planta dá. E tem funcionado esta máxima. O país conta com pesquisa, tecnologia, produz muito e ainda preserva. O país ocupa menos de 10% de sua área com agricultura. Mesmo assim, segundo  o estudo “Projeções do Agronegócio, Brasil 2018/2019 a 2028/2029”, desenvolvido pelo Ministério da Agricultura e a Embrapa, a área total plantada com lavouras no país passará de 75,4 milhões de hectares para 85,68 milhões, crescimento de 13,63% em dez anos. E mais: na próxima década, o Brasil vai produzir 300 milhões de toneladas de grãos, ou seja, mais 62,8 milhões de toneladas (27%).

Pequenos insetos, grandes ganhos

Sabe quem é um grande aliado nisso? As abelhas. A agricultura sem elas produziria muito menos e algumas culturas nem conseguiriam produzir. É simples: pólen e néctar das plantas são o principal alimento das abelhas em todas fases da vida e fazendo isso elas polinizam a lavoura. Cerca de um terço da produção agrícola mundial está sob responsabilidade desses pequenos insetos que polinizam 85% das culturas fundamentais.

Um estudo publicado no Journal of Economic Entomology mostrou a dependência das culturas agrícolas por polinização animal. As abelhas são responsáveis pela polinização de 42% das 57 espécies vegetais mais plantadas no mundo. No Brasil das plantas cultivadas, mais de 60% dependem da polinização animal, considerando plantas cultivadas para alimentação humana, produção animal, biodiesel e fibras.

Em 2018 os serviços ecossistêmicos (polinização) prestados à agricultura pelas abelhas e outros animais foi estimado em R$ 43 milhões. Alguns produtos de grande relavância no Brasil dependem muito delas. São eles: soja, café, feijão, laranja, maçã, melão e cacau. Mesmo as que não dependentes da polinização animal se beneficiam como trigo, milho e arroz. No algodão, por exemplo, a atividade das abelhas aumenta em 16% o peso da fibra e na canola eleva a produtividade em 70%.

Relação conturbada

Nem sempre essa relação é harmoniosa. O uso indiscriminado e não seguindo as boas práticas agrícolas de inseticidas na soja foi responsável por 70% da mortandade de abelhas no Rio Grande do Sul entre 2014 e 2017. Cerca de 480 milhões de insetos morreram entre o final de 2018 e o começo de 2019. Em Santa Catarina foram 50 milhões de abelhas a menos em janeiro de 2019.

“O Brasil serve de exemplo para o mundo”

Segundo o Movimento Colmeia Viva, iniciativa promovida pelo setor de defensivos agrícolas que tem por objetivo incentivar o diálogo entre agricultores e criadores de abelhas, esse cenário vem mudando. Só pela presença dos insetos é possível aumentar a produtividade, já que eles têm a soja como pasto apícola. Por outro lado a produção de mel também é intensificada com boas floradas na soja. Essa proximidade pode render aumento de até 10% na produtividade da oleaginosa.

O Portal Agrolink conversou com o consultor técnico da iniciativa e coautor da  pesquisa Abelhas em Campo e apicultor, Heber Luiz Pereira, sobre como esta relação pode ser harmoniosa:

Portal Agrolink: que benefícios as abelhas trazem para a cultura da soja?

Heber Luiz Pereira: a cultura da soja é autógama, ou seja, a reprodução é predominantemente por autofecundação, não sendo necessário o serviço de polinizadores como as abelhas. Porém, foi comprovado que algumas cultivares em boas condições de cultivo se beneficiam da presença de abelhas, com incrementos nos rendimentos de produção que podem ultrapassar os 5%. Esse aumento está relacionado a melhora em alguns parâmetros como peso médio de sementes, número médio de sementes por vagem e outros que estão sendo estudados em um projeto da Embrapa Soja coordenado pelo pesquisador Décio Luiz Gazzoni.

Portal Agrolink: em 2020 como foi o cenário? Tivemos muitas baixas nas colmeias?

Heber Luiz Pereira: todo ano ocorrem perdas de abelhas por diversos fatores, os dados não são precisos devido a omissão de muitos casos, e o motivo nem sempre está claro. A produção de mel foi crescente nos últimos anos e é o melhor indicador de que o cenário não é pessimista como muitos pensam.

Portal Agrolink: como o projeto vem trabalhando a questão e o que podemos destacar de ações e resultados em 2020?

Heber Luiz Pereira: a questão do convívio entre abelhas e a agricultura tem sido levada muito a sério e as ações desenvolvidas têm várias frentes das quais podemos destacar o projeto “Abelhas em Campo”. Este projeto buscou experiências reais de convívio entre abelhas e algumas culturas com alta, média, baixa e nenhuma dependência por polinizadores, as técnicas de manejo e boas práticas tanto agrícolas quanto apícolas (ou meliponícolas) utilizadas nestes cenários foram descritas e deixam claro como o profissionalismo no campo torna possível essa existência e possibilita ganhos produtivos de ambos os lados.

Portal Agrolink: quais os maiores desafios na questão ainda?

Heber Luiz Pereira: o desafio maior é a comunicação, o conhecimento sobre a importância dos dois segmentos produtivos está sendo difundido, ambos os lados estão cada vez mais conscientes e precisam se comunicar.

Portal Agrolink: o Brasil avançou no cuidado com as abelhas ou ainda é preciso mais efetividade?

Heber Luiz Pereira: o Brasil serve de exemplo para o mundo e está em contínua evolução, o cuidado com as abelhas tem sido incentivado por diversas organizações, a exemplo o movimento Colmeia Viva que gerou conhecimentos sobre técnicas amigáveis e criou um aplicativo para facilitar o diálogo entre agricultores e apicultores, as ferramentas estão disponíveis e resta apenas maior aceitação pelos envolvidos.

Fonte: AGROLINK -Eliza Maliszewski